Inclusão é não precisar falar de inclusão. É quando enxergamos apenas crianças e famílias ao invés de focar nas “diferenças”.

Sábado passado, uma grande amiga estava tomando café da manhã na minha casa, e pegou seu celular. “Todas as crianças da classe do Felipe* estão num picnic no Parque do Povo!”, disse ela num tom alarmado. “Ah que lindos! Deixa eu ver?”. “Você não entendeu! Essa foto foi tirada agora, tô vendo no INSTAGRAM, e o Felipe* é o único que não está!”. Sim… toda a turma no parque, tomando aquele sol da manhã tão importante pra gente. O sol é responsável por cerca de 90% da aquisição de vitamina D pelo nosso organismo, e os alimentos como leite, gema de ovo, manteiga, peixes de água fria, shitake seco e óleo de fígado de bacalhau respondem pelos outros 10%. Mas naquele dia, o Felipe* não tomou sol.

Felipe* tem Síndrome de Down. E eu me recusei a acreditar que ele não tinha sido convidado pro programa por causa disso. Preferi perguntar pra minha amiga se ela tinha certeza que a mãe e o pai do Felipe* estavam acompanhando todo o troca-troca de mensagens do grupo de WHATSAPP da turma, porque vai ver que eles tinham perdido toda a conversa sobre a combinação do picnic. Eu sei o tanto que os pais do Felipe* são engajados no grupo da escola, sei que participam de todas as atividades e vão em todas as festas e sei disso porque um dos principais motivos deles serem tão participativos é exatamente o medo do Felipe* ser deixado pra trás.

Eu fiquei destruída por dentro. Acho inconcebível que, em 2019, uma turma de pais ensine a crianças de dois anos que segregação é um caminho aceitável. O termo segregar significa separar, marginalizar, isolar o contato, distanciar algo ou alguém considerado diferente. No estudo da Sociologia, a segregação social é definida como uma separação espacial (geográfica) de um grupo de pessoas, em virtude de diversos fatores, como a raça, o poder aquisitivo, religião, etnia, educação, nacionalidade ou qualquer outro fator que possa servir como meio de discriminação. Eu não sei vocês, mas não consigo aceitar um fato assim. Ainda mais quando descubro que ele não foi um fato isolado. E que o Felipe* obviamente não é a única criança a passar por situações sem nexo como essa.

Quando eu coloquei meu filho na escola, ele tinha um ano e três meses. A escola matriculava crianças aos onze meses, e eu passei esses quatro meses extras ensaiando pra esse momento chamado “adaptação”. No meu caso, era hora de tirar meu filho “diferente” e suas duas mães da nossa bolha de convivência. Era hora de colocá-lo num mundo onde ele poderia esbarrar com preconceito, assim como o Felipe* tem esbarrado.

Meu maior pânico era abrir o INSTAGRAM um dia e ver toda a turma dele num parque, tomando sol, aquele sol tão importante, e ele ter sido deixado pra trás. Isso não aconteceu. Muito pelo contrário, ele é um garoto querido pelos amigos, que entendem desde cedo que existem casas com duas mães, com dois pais, só com uma mãe, só com um pai, com mãe e avós, só com avós, com tios, com crianças que precisam de cuidados especiais, com pais que precisam de cuidados especiais, enfim… os amigos do meu filho estão crescendo inseridos num mundo onde quem sabe nem precisaremos mais falar sobre inclusão… Que lindo será esse mundo!

Mas mesmo não tendo sofrido na pele o que os pais do Felipe* sofreram sábado passado, é impossível não sentir no coração. É impossível também que eu aceite o convite pra fazer um programa isolando parte da turma ou uma criança da turma por qualquer motivo que seja. Não apenas por empatia, não só por solidariedade, mas porque qualquer um de nós e qualquer uma de nossas crianças pode (e vai!) ser o “diferente” em alguma situação da vida. Isso é simplesmente inevitável. Todos os dias, em algum lugar, crianças não são incluídas. E você que leu até aqui e ficou com um nó na garganta, pode mudar isso no próximo picnic.

* Por motivos de respeito à família, o nome da criança foi trocado.

DICAS DE LEITURA INFANTIL QUE ABORDAM INCLUSÃO E DIVERSIDADE:

– Pássaro amarelo, Olga de Dios
– O Grande e Maravilhoso livro das Famílias, Mary Hoffman e Ros Asquith
– Tem lugar ai pra mim?: Um livro sobre Direitos Humanos e respeito à diversidade
– Ninguém é igual ninguém, Regina Otero
– Que Cor É a Minha Cor?, Martha Rodrigues
– Rodrigo Enxerga tudo, Markiano Charan Filho
– Flicts, Ziraldo
– Minha família é colorida, Georgina Martin
– Poema “Pessoas são diferentes”, Ruth Rocha

DICAS DE PROJETOS E PERFIS INCRÍVEIS:
#eSeFosseSeuFilho (Instagram)
#maespeladiversidade
– Iniciativa Kids @iniciativakids
– @caminhoscommanu
– @lagartavirapupa
– @laucpatron
– @lucelmo.lacerda

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